Black Friday e a falta de criatividade do empresariado brasileiro.

Black FridayDesde a década de sessenta existe nos Estados Unidos a tradição da abertura da temporada de compras de natal, iniciada no dia posterior ao Thanksgiving (Dia de Ação de Graças).

Nesta data, as grandes lojas dão grandes descontos, geralmente entre 60 e 70%. Multidões então tomam as ruas, filas de quarteirões se formam na porta das lojas esperando sua abertura para aproveitar os descontos. Inclusive existe uma grande preocupação com segurança nestas datas, pois os consumidores chegam a entrar em conflito para conseguir as últimas unidades de produtos a preços promocionais.

Tradição norte-americana. Se a prática é saudável ou não, se o incentivo desenfreado ao consumo é feito de maneira ética ou não, não nos vale discutir. Isso já é parte intrínseca de sua malha cultural, as pessoas já esperam por isso e praticam o evento. Cultura muitas vezes não necessita de argumentos convincentes que explique sua existência.

Porém, é uma cultura norte-americana. Que nasceu, se transformou e se desenvolveu dentro da realidade daquele país. e de seu povo. Até que ponto esse tipo de convenção cultural se aplica a outras realidades?

O Brasil teve em seu processo de desenvolvimento e ate amadurecimento o hábito de se espelhar em outras culturas na realização de suas inserções culturais; também pudera, sendo um país que foi criado e crescido com uma mistura de raças, ideologias e crenças diferentes, não havia uma identidade genuína de sua essência. Então proclamava-se que o que era bom na Europa, devia ser também bom no Brasil, posteriormente o quer era bom nos Estados Unidos, deveria ser também bom no Brasil.

Mas o mundo mudou, o Brasil mostrou sua cara pro mundo e prova a cada dia ser uma nação forte, com cultura genuína, criada pelas entranhas de sua miscigenação.

Com argumentos culturais tão fortes, conhecidos pelo povo daqui, sua cultura e seus costumes, não temos nada que se aproxime deste evento norte-americano.

Talvez a corrida desesperada de compras antes do natal ou em datas como Dias das Mães ou Dia das Crianças, em shopping centers ou em praças de comércio popular como a Rua 25 de março em São Paulo (como deve haver mais centenas do gênero espalhadas pelo país), porém em sua essência diferem de maneira grosseira ao evento norte-americano.

Black Friday não faz parte da nossa cultura, nem ao menos comemoramos o Dia de Ação de Graças, como é feito por aquelas bandas. Realmente é válida a contaminação cultural sendo apenas mais uma data criada para incentivar o consumo?

O Empresariado brasileiro viu a oportunidade. Ha alguns anos já grandes redes utilizam o argumento do Black Friday como oportunidade única. 24h de preços incríveis! Pura falta de imaginação aliada a uma parcela de desonestidade das próprias empresas.

Desonestidade porque o empresariado, assim como o povo não tem a cultura deste tipo de evento. Suas projeções comerciais e todo seu planejamento culturalmente não comporta esse tipo de evento com uma grade de descontos dessa magnitude, então cria-se a mágica dos grandes descontos que não existem. Uma geladeira que custa R$ 1200,00 uma semana antes de evento sobre de preço para R$ 1900,00 para no “Dia mágico das promoções” sai com seu grande desconto, podendo ser comprada pelos mesmos R$ 1200,00 que estava na semana anterior.

O detalhe maior é que depois dos Black Friday as promoções ainda continuam, afinal ja estamos praticamente no Natal, onde as pessoas aproveitam seu 13º salário para compras (isso sim um argumento genuíno brasileiro, apoiado em nossa cultura e nossa forma de pensar!)

O que falta ao empresariado brasileiro na criação de movimentos genuínos, baseados em nossa própria cultura, com nossos próprios códigos culturais e relacionados a nossa maneira de pensar e agir? O Brasil é uma país fantástico quando pegamos como matéria prima seu folclore a ser trabalhado em relação emocional que leva as pessoas. Porque não aproveitamos esse potencial para criar nossos próprios movimentos? O brasileiro em si não sabe nem ao menos pronunciar “Black Friday”, porque esperar que pensemos da mesma forma que outras culturas?

Recentemente, ouvi do Professor Alan Dubner algo que para mim faz todo sentido dentro deste contexto: O Mundo hoje passa por um processo de transformação muito rápido, onde pequenos movimentos tomam força e grandes proporções, podendo levar a uma mudança na maneira de pensar e de agir de um grupo, podendo elejer presidentes ou derrubar velhos tabús. A disseminação rápida que a informação hoje trafega, seja por meios mais tradicionais ou por mídias sociais é espantosamente alta. Mas pra que as pessoas se sintam realmente engajadas e levantem a bandeira de um movimento, elas precisam se identificar com aquela causa, e para isso, no mínimo, ela deve ser genuína.

Falar de Black Friday no Brasil para mim soa como querer transformar a “Festa do Figo de Valinhos” em um evento praticado na Sibéria. Não faz sentido e, ser um evento só por ser um evento, passa a ser tolo e banal.

Deixemos que cada cultura tenha sua própria identidade, deixemos que o turismo faça com que os brasileiros que queiram aproveitar o Black Friday e que realmente se identifiquem com essa causa, vão buscar nos Estados Unidos sua realização ou comprem aqui pela internet e se beneficiem dos descontos reais que são dados por lá nestes eventos, da mesma forma que o povo da Sibéria que se identifique com a Festa do Figo venha para Valinhos viver essa experiência.

Movimentos genuínos geram engajamento! É disso que o mundo precisa!

Henrique Lantin



Uma resposta para “Black Friday e a falta de criatividade do empresariado brasileiro.”

  1. Renato Segantim disse:

    Boa reflexão!

    Importar um evento de sucesso esperando essa mesma reação de uma cultura diferente realmente é muita pretensão. E uma cultura diferente tanto por parte dos consumidores quanto do comércio.

    E ainda levando em conta que pegamos ‘carona’ nessa ação que lá já é realidade, e está em um estágio avançado. Aqui, teríamos que traçar estratégias de lançamento de campanha, adaptando a percepção e recepção do público, até disseminar a ideia e objetivos principais de forma efetiva e organizada… e dando a ”nossa cara”. Assim, até poderíamos adotar a mesma data e nome.

    Mas da forma que foi feito, como li hoje, o evento aqui virou: “…tudo pela metade do dobro”.

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