Sustentabilidade, uso errado do termo e o que você pode fazer a respeito!

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Muito se fala sobre sustentabilidade, e muito além de ser um “assunto da moda”, é algo que gostaria de deixar minha opinião e considerações.

Sustentável vem da busca de um equilíbrio que lhe dê continuidade, é a qualidade de sustentável, que pode ser sustentado.
Ai inicia-se então a filosofia que todos estamos conectados e todos os tipos de ações tem consequências: os indivíduos, organizações, comunidades, meio ambiente, etc todos geram interação e sofrem consequências sobre os atos de todos, esse é o conceito de interdependência.

Queda de um mito. Sustentabilidade NÃO É (só) cuidar do meio ambiente.
Sustentabilidade em si sempre está aplicado a alguma coisa, geralmente o uso do termo se dá em relação a “desenvolvimento sustentável”, porém diferente do que muita gente pensa, a expressão está relacionada não tem ligação uma ligação direta com “cuidar do meio ambiente”, e sim de você proporcionar desenvolvimento baseado em pilares econômicos, sociais e ambientais. Por exemplo, falar que não se deve utilizar água numa indústria ou cortar árvores onde passaria uma rodovia por causa da “sustentabilidade” seria um uso totalmente incorreto do termo, pois não estaríamos analisando o problema de uma ótica maior, que seria a análise dos fatores econômicos e sociais e ambientais.
Por exemplo, uma empresa que dá bastante lucro, e que faz uma ótima exploração de recursos naturais, repondo ao meio-ambiente o que extrai, tratando do seu lixo e água, que promove ações de preservação ambiental e etc, mas que não registra corretamente seus funcionários ou não paga todos os impostos, não é sustentável, pois está lidando bem com os fatores ambientais e econômicos, mas não com os fatores sociais primordiais.

Na verdade a questão de sustentabilidade funciona como uma pirâmide triangular invertida, onde os fatores econômicos, sociais e ambientais estão em suas faces e busca-se o alinhamento da pirâmide. Esse conceito tomou grandes proporções e pode ser pesquisado como “Triple bottom line”

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Sociedade do Consumo e Sustentabilidade.
Como então buscar a tal sustentabilidade numa sociedade como vivemos hoje? A resposta é simples: mudar a sociedade.
Vivemos uma nova forma de consumo, marcada pela oferta incessante de produtos e por uma demanda crescente.

Segundo Lipovetsky em seu livro “Os tempos Hipomodernos”
…”Cada vez mais, o consumidor busca nas suas compras, experiênciais emocionais, bem-estar, imediatismo, autenticidade e exclusividade”…
No Brasil, num país com a riqueza tão mal distribuída, a falta de entendimento do próprio termo e a falta de conhecimento do resultado que poderia ser gerado por empresas que adotam a sustentabilidade geram números interessantes:
Segundo Fabián Echegaray (Doutor em Ciência Política),…”Mais de 75% dos brasileiros acreditam ser muito relevante o desempenho sociambiental das empresas. Porém, somente 10% a 20% efetivamente se comportam dessa forma no ponto de venda, comprando ou deixando de comprar produtos de empresas em função de seu comportamento em relação à sustentabilidade”…

Quando então uma empresa pode-se dizer sustentável?
Uma empresa somente pode-se dizer sustentável quando leva em conta o equilíbrio dos 3 fatores. Por exemplo, quando consegue equilibrar a utilização de recursos naturais com o que faz em troca neste sentido, ao mesmo tempo que equilibra sua utilização de recursos sociais e equipara seus recursos econômicos. Muitas vezes é necessário abrir mão de certas margens de lucratividade (fator econômico) para investir em implementações no patrimônio humano (fator social), ou até mesmo planejar seu crescimento de forma mais lenta a fim de diminuir a utilização de recursos naturais até que haja um equilíbrio que proporcione crescimento sustentável.

Responsabilidade social empresarial.
É uma série de compromissos que a empresa tem com sua cadeia produtiva. Envolve clientes, funcionários, fornecedores, comunidades, meio ambiente, sociedade e governo.
É uma forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

O instituto Ethos desenvolveu um “guia” com 7 itens que devem ser analisados no quesito sustentabilidade:

1. Valores, transparência e governança Diz respeito a valores e princípios éticos formam a base da cultura de uma empresa: como a empresa é gerida, seu código de conduta e de ética, seus valores e a transparência da organização.

2. Público Interno Não se limitar em respeitar o direito dos trabalhadores, mas investir no desenvolvimento pessoal e profissional, melhorar as condições de trabalho e estreitar relações com os empregados.

3. Meio Ambiente Não contribuir para práticas predatórias, promover conscientização ambiental, etc. 4. Fornecedores Estabelecer critérios de seleção e avaliação de fornecedores exigindo boas práticas, dividir com eles conhecimentos para ajudá-los a trabalhar de forma mais sustentável.

5. Consumidores e Clientes Garantir que os direitos dos consumidores estão sendo cumpridos, excelência no atendimento, atender às expectativas dos clientes, garantir o gerenciamento de possíveis danos de produtos e serviços.

6. Comunidade A comunidade fornece à empresa infra-estrutura e o capital social. Investimentos na comunidade são justos e minimizam conflitos.

7. Governo e Sociedade Envolve transparência política, a construção de cidadania, a participação em projetos sociais governamentais, etc.

E investimentos em sustentabilidade só dão prejuízo?
Não. Investimentos em sustentabilidade, além da continuidade saudável da organização, geram:
– Aumento da reputação de marca, valor intangível no patrimônio da empresa.
– Redução de custos com eficiência elétrica
– Diferencial competitivo em relação aos concorrentes
– Redução na utilização de materiais (por exemplo, embalagens menores)
– Implemento de sistemas de eficiência e diminuição de perdas de material
– Acesso a novos nichos de mercado (comprometidos a trabalharem somente com empresas sustentáveis)
– Incentivos fiscais

Fora isso a sociedade forma pressões através do governo, iniciativas privadas e organismos internacionais (ONU, OMC, etc) para que empresas invistam em Responsabilidade Social Empresarial, através de legislações (ambientais, trabalhistas, direito dos consumidores), reinvindicações de sindicatos, e a própria exigência dos consumidores.

Porém os investimentos em sustentabilidade não são feitos com o intuito de lucro sobre as ações e sim de uma implementação da empresa numa sociedade moderna.

Hoje existem pressões da própria sociedade sobre a não utilização de marcas que exploram trabalho infantil, utilizam testes em animais, sonegam imposto de renda, etc. A tendência é que essa percepção da sociedade se amplie e volta para as marcas a responsabilidade de ser correta e sustentável.
Por exemplo, você utilizaria um produto de uma marca que investe em seus funcionários, remunera bem os colaboradores, tem programas de aprendizado, creches, atua na comunidade, etc… ou vai comprar de uma empresa que não faz nada disso? Decisões como essa começa a serem decisivas aos consumidores na hora da compra.

Global Compact
Organizações multinacionais se reuniram em uma conferência da ONU em 2000 para discutir seus compromissos para o desenvolvimento sustentável, desse encontro se formou o Global Compact, que é uma série de ações para tornar a economia mundial mais sustentável, baseada em 10 princípios.

Direitos Humanos
1. Apoiar e respeitar a proteção dos Direitos Humanos internacionais.
2. Certificar-se de que suas próprias corporações não estão sendo cúmplices de abusos em Direitos Humanos. Direitos Trabalhistas
3. Apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva.
4. Apoiar a eliminação de todas as formas de trabalho forçado e compulsório.
5. Apoiar a erradicação efetiva do trabalho infantil.
6. Eliminar a discriminação com respeito ao emprego e cargo.
Meio Ambiente
7. Adotar uma abordagem preventiva para os desafios ambientais.
8. Tomar iniciativas para a promoção de maior responsabilidade ambiental.
9. Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente sustentáveis.
Anti-corrupção
10. Trabalhar contra todas as formas de corrupção, inclusive extorsão e propina.

Ponto Doce e Sustentabilidade
Fica então a dúvida, como investir na medida certa em sustentabilidade, garantindo um retorno na medida do investimento?
Existem estudos e estratégias que buscam o chamado “Ponto Doce”, que é a medida entre os interesses das empresas e os interesses dos stakeholdes, gerando novos produtos, serviços, processos, mercados, modelos de negócios, métodos de gestão e divulgação de informações.

Andrew W. Savitz no livro “Empresa sustentável: o verdadeiro sucesso é o lucro com responsabilidade social e ambiental” descreve bem seu resultado:

“Ao exercer suas atividades, as empresas consomem não apenas recursos financeiros, mas também recursos ambientais e recursos sociais. As empresas sustentáveis devem ser capazes de medir, documentar e reportar ROI positivo em seus três resultados – econômico, ambiental e social – assim como os benefícios recebidos pelos stakeholders nessas mesmas dimensões.”

Greenwashing
É um termo utilizado para designar um procedimento utilizados por uma organização (empresa, governo, etc.) com o objectivo de dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Neste caso, a organização tem, porém, uma atuação contrária aos interesses e bens ambientais.
Em resumo… uma empresa que “vende” ser sustentável, ou verde, mas no final não é nada disso. Por exemplo, uma empresa que produz uma produto eletrônico de alta eficiência, mas que teve em sua composições materiais prejudiciais a saúde de seus funcionários ou fez uma extração ilegal de matéria prima.
Grandes empresas como hoje fazem um ranking das empresas que fazem Greenwashing tanto quanto fazem ranking de empresas realmente sustentáveis.

 

Sei que o tema é muito amplo e permite várias análises sobre como investir em sustentabilidade buscar esse retorno de alguma forma.

Logo publicarei novos artigos sobre o tema!

Henrique Lantin



Uma resposta para “Sustentabilidade, uso errado do termo e o que você pode fazer a respeito!”

  1. Anibal disse:

    Excelente, nada mais a acrescentar, a não ser dizer que o uso errado do termo não é culpa do consumidor, mas das próprias marcas.

    A ARCHOTE, indústria de produtos de limpeza (www.archote.ind.br ) não tá nem aí pra nada e usa o termo unicamente porque ouviu dizer que dá credibilidade aos produtos?

    Culpa da marca? Não totalmente. Culpa do mercado nacional que usa com todas as más intenções do mundo o adjetivo como forma unicamente comercial de vincular o produto a algo lúdico, vide a marca ECOBRIL, da Bombril, que de “eco”, só o nome.

    Isso não vai parar enquanto as agências de publicidade brasileiras forem tão desonestas na relação com os consumidores. A publicidade no Brasil é de envergonhar a alma.

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